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Solitária

Foto do escritor: Fernanda Pantaleão Dirscherl
Fernanda Pantaleão Dirscherl
11 de set.
4 min de leitura

Foi isso que escutei de uma criança em um domingo de manhã em uma cafeteria perto do Ibirapuera.


Foi um final de semana que eu decidi ir para São Paulo fazer várias atividades diferentes e todas com algo em comum: sozinha.


Sentei perto de uma mulher com uma criança. Ri alto de alguma coisa boba no celular, daquela risada que vem de dentro. A menina se virou na cadeira, olhou bem para mim e disparou a palavra.


"Solitária".


A palavra em si não é um problema, afinal, se isso realmente me incomodasse eu não tinha escolhido passar tantos momentos da minha vida na minha própria companhia.


O que estranhei foi uma criança tão pequena carregando a ideia de que estar sozinha é algo ruim (solitária me parece ter um caráter meio pejorativo, negativo, não me parece ser algo muito bom).


Alguém ensinou isso para ela em algum momento, mas a questão é que crescemos aprendendo que estar sozinha é problemático. Não sei enumerar a quantidade de vezes que já me perguntaram por que eu viajo tanto sozinha, se é porque não tenho amigos, se é porque ninguém quis ir comigo, se não é perigoso.


Acontece que estar só pode significar muita coisa. Liberdade. Escolha. Descanso. Amor-próprio. Não necessariamente é sinônimo de solidão (pode ser também, claro). Mas também não reflete fragilidade, e nem mesmo fracasso.


Às vezes é só um mero momento de paz.


Quem sou eu, então...


Sou professora de idiomas, advogada e, nas horas que sobram da tese de doutorado, a pessoa por trás do Panda no Mundo, meu cantinho de viagem solo, roteiros e milhas.


Cachoeira Casca d'Anta na Serra da Canastra, MG
Cachoeira Casca d'Anta na Serra da Canastra, MG


Nasci e cresci em uma cidade no interior de Minas Gerais. De lá para cá já morei em outros países, montei e desmontei mala mais vezes do que consigo contar, e aprendi boa parte do que sei sobre viajar sozinha por tentativa, erro e um bocado de coragem que, na hora, eu nem sempre reconheci como coragem.


Minha primeira viagem sozinha eu nem lembrava direito, tive que perguntar para a minha mãe (afinal, mãe lembra de tudo, principalmente do que a gente esquece).


Eu tinha uns 14 anos. E não foi bem uma "viagem sozinha": foi só o trajeto, de ônibus, do interior até Belo Horizonte, e de lá até a cidade de uma amiga, também no interior.


Eu já sabia que teria companhia assim que chegasse. Mas para uma adolescente que vivia debaixo das asas dos pais, em uma época sem metade da tecnologia que existe hoje (o máximo que eu tinha era ligação e SMS), sair sozinha para atravessar o próprio estado já era sair bem longe da zona de conforto.


Não parecia corajoso na hora, e eu não fazia ideia de que aquele trajeto simples era o primeiro tijolo de tudo que eu faria depois.


Corajosa não é bem a palavra...

Pico da Bandeira na Serra do Caparaó. Parque Nacional do Caparaó. Na divisa de Minas Gerais com Espírito Santos
Pico da Bandeira na Serra do Caparaó. Parque Nacional do Caparaó. Na divisa de Minas Gerais com Espírito Santos

Por causa do meu estilo de vida e de inúmeras escolhas, escuto bastante que sou corajosa. E toda vez penso "Corajosa, eu? Eu sou é medrosa", esquecendo completamente na hora que já subi o terceiro maior pico do Brasil sendo asmática, que já escalei, mesmo com muito medo de altura, que já atravessei o oceano duas vezes com uma mala de 23kg, um sonho e sem conhecer ninguém do outro lado.


E foi em uma das inúmeras conversas com um querido amigo que escutei: "Mas você é corajosa, Fernanda, coragem não é a ausência do medo como você está pensando, é exatamente ir, ainda que com medo" (e o mais curioso é que uma das frases que mais falo é "Tá com medo? Vai com medo mesmo").


É que eu faço coisas que na minha cabeça são fáceis, foi o que respondi.


Só que o que eu nunca havia pensado (até o momento dessa conversa em especial) foi em um complemento que meu amigo me disse: "para você, para todas as outras pessoas, que não veem inclusive seus medos, são muito difíceis de serem feitas".


E assim entendi que coragem não é a ausência do medo. É ir apesar dele.


E é mais ou menos assim que eu viajo, que eu escrevo, que eu decido algumas das coisas na minha vida (e que eu tenho na memória como incríveis): com medo às vezes, mas indo.


O que você vai encontrar aqui


Esse blog nasce para ser a versão mais longa e mais detalhada do que eu já compartilho no Instagram: os roteiros que eu de fato testei, errei e corrigi, como estudo e acúmulo, e decido entre milhas e dinheiro na hora de fechar uma passagem, os perrengues que a gente não costuma mostrar e os aprendizados que ficaram depois deles.


Se você também está pensando em viajar, principalmente sozinha, seja a primeira vez ou a enésima, acho que a gente vai se entender bem por aqui.


Enquanto os próximos posts vão saindo, me encontra no Instagram, no Panda no Mundo (@ferdirscherl).

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